O 25 de Abril em Cabo Verde: Vanda Oliveira

PorRosário da Luz,28 abr 2014 0:00


Quando chega a São Vicente?

Chego a São Vicente em 1972 e encontro alunos do liceu ávidos de saber o que é que se passa lá fora. Toda a notícia era filtrada, e nós vivíamos completamente alienados do que se passava no mundo. Portanto cheguei e tinha novidades para dar. Era através dos pequenos contactos – com o emigrante, o estudante em férias, um barco que passava no Porto – que obtínhamos pequenas informações. Chegando de Portugal, eu tinha alguma informação e alguns livros – até Os Maias de Eça de Queiroz era proibido (risos); e estava numa posição relativamente privilegiada; porque além de ter chegado com alguns livros na bagagem, tinha presenciado o movimento de Coimbra através dos meus primos que lá estudavam. E tive como colegas filhos de militantes do partido comunista; foi um deles que me passou pela primeira vez o Hora di Bai de Manuel Ferreira. Chocou-me imenso: eu tinha saído de Santiago, estava em Portugal e vi que nós nas outras ilhas não sabíamos da realidade de São Vicente. Voltei para ver; fui para os bairros acompanhada dos meus colegas – na época era um escândalo uma menina da “sociedade” ir para a periferia – depois no liceu surgiu a ideia de que devíamos nos consciencializar – manter viva a nossa identidade como Cabo-verdianos. Mas como fazer isso? Surgiu de um grupinho do liceu a ideia de fazer um programa pela rádio sobre a literatura Cabo-verdiana. Dele faziam parte o Aristides Lima, o Rui Figueiredo Soares, o Humberto Cardoso, o Manuel da Graça, o António Pascoal dos Santos.

 

A Vanda era a única mulher desse grupo?

Sim (risos), era a única mulher. Trocávamos livros e começamos a fazer um programa na rádio Barlavento. Naquele tempo não se podia chamar a atenção com grupos grandes, por isso o nosso primeiro encontro foi clandestino. Reunimo-nos numa casa em construção em Monte Sossego e delineamos a nossa estratégia de actuação: era necessário passar pela censura.

 

Como foi o processo de obter autorização para o programa?

Eu era filha do Administrador: tinha por isso uma posição privilegiada, e o meu pai fechava os olhos e dava uma certa cobertura. Mas essa autorização era apenas para literatura. Cada programa era dedicado a um autor. Lia-mos um extracto de prosa ou de um poema e fazíamos alguns comentários.

 

Quais eram os vossos autores de eleição?

Tínhamos restrições porque muitos autores eram proibidos: o Onésimo Silveira, o Ouvídio Martins também. Mas muitas vezes quando queríamos ler um autor, dávamos-lhe o nome de outro, porque o que nos  interessava era que a mensagem passasse. Numa semana íamos a casa do Dr. Baltasar Lopes levar o nosso rascunho do programa. Ele lia, fazia comentários e ajudava-nos, mas nós é que o elaborávamos.

 

Baltasar Lopes estava consciente dos vossos propósitos?

Sim, perfeitamente consciente. Na semana seguinte íamos ao Dr. Roque Gonçalves. Essas visitas eram autênticas aulas. Explanavam os seus comentários e abriam as nossas mentes. O programa obteve uma grande audiência – não só de estudantes, mas de camponeses, trabalhadores – identificavam-se com o programa. Liamos por vezes em crioulo e isso chamava a atenção porque era a primeira vez. Também visitávamos o Teixeira de Sousa, mas ele não explanava; limitava-se a corrigir e comentar, talvez porque não fosse professor. Mas tivemos muita influência de Baltasar Lopes e António Aurélio Gonçalves.

 

E como é que as coisas evoluíram, baseadas nessa notoriedade que o programa conseguiu?

Quando a censura viu a audiência crescer, começou a apertar mais connosco; e quando num dos programas quisemos passar um poema do Ouvídio Martins – e assinamos com o nome de um outro autor – a censura passou. Mas quando ouviram o poema, chamaram-nos; fui eu, o Aristides Lima e o Rui Figueiredo. Passaram a riscar-nos. Quando não tínhamos programa por causa da censura anunciávamos “Nos Terra, hoje não temos programa porque ficou no tinteiro!” E o povo ficava sabendo; e com muita subtileza, mantínhamos uma certa revolta na consciência de quem ouvia. Naquela altura o Luís Fonseca ainda não tinha saído da prisão. Quando sai, começo a ter contacto com ele. Antes tinha alguns contactos com o Bernardo Oliveira, que trabalhava no Foto Djibla. Havia na altura trocas de discos; fui lá para conversarmos e saí com um LP nas mãos; mas dentro da capa estava um disco gravado com poemas do PAIGC; e tentamos imitar aquela forma de declamar. Nem todos poemas conseguíamos passar; alguns passámos logo depois do 25 de Abril, naquela fase confusa onde ainda não se tinha muitas certezas.

 

Quando é que o movimento liceal saiu desta meia clandestinidade e alargou as suas actividades? Foi antes ou depois do 25 de Abril?

Antes do 25 de Abril, publicamente, estávamos praticamente reduzidos ao programa de literatura.

 

Qual era o nível de contacto político que os grupos de que a Vanda fazia parte tinham com a organização política do PAIGC antes do 25 de Abril?

O único contacto era entre mim e o Luís Fonseca, quando saiu da prisão. Apresentaram-nos na Rua de Lisboa. Eu disse oi, e ele: “continuá ta andá”. Eu disfarçava e tornava a passar por ele. A nossa conversa resumiu-se praticamente a ele dizer-me: “continuá k’es programa, ma ka bo falá ma mim”, porque senão ficava marcada. Sendo o programa conhecido, os estudantes desenvolveram muito respeito por nós. O Rui Figueiredo e o Aristides Lima eram estudantes do quadro de honra, e a postura do aluno do liceu daquele tempo era muito diferente; o aluno do ensino complementar já tinha postura de um senhor. Já era respeitado pelo nível académico que tinha atingido. E nós sabíamos também que era necessário um certo sacrifício da nossa parte; havia uma consciência que hoje é difícil de entender, a de querer fazer algo para o povo, e de ter a noção de que somos responsáveis porque tivemos certas oportunidades e eles não. A nossa posição – no nosso subconsciente – era a de líderes; e sentíamos muito as nossas responsabilidades.

 

Nessa época já tinham alguma informação sobre as manifestações dos estudantes de Paris em Maio de 1968, da Primavera de Praga? Quais eram as vossas leituras?

Já tínhamos informação porque eu vim de Portugal e trouxe material do movimento estudantil de Coimbra…nessa altura, trocávamos poucos livros de política, muito mais de literatura cabo-verdiana. Qualquer livro sobre política podia causar-nos problemas. Líamos uma coisinha ou outra, mas nada de muito relevante. O que teve peso foi a leitura dos livros cabo-verdianos, a consciencialização de que éramos cabo-verdianos e não portugueses, a nossa capacidade de análise – e a grande influência do Dr. Baltasar Lopes e do Dr. António Aurélio Gonçalves. O nosso grande desgosto foi quando soubemos que Cabral tinha morrido. Nessa altura questionámos se valia a pena avançarmos com o programa ou não. Porque o facto de sabermos que ele estava lá, dava-nos muita força…

 

Apesar de não terem tido nenhum contacto prático com o PAIGC?

Apesar de não haver qualquer contacto com o PAIGC, sabíamos que o partido existia e que queríamos trabalhar em conformidade. Então ficamos muito abalados na altura, mas depois de várias discussões, estávamos motivados para continuar.

 

Receberam a notícia que um cabo-verdiano, o Aristides Pereira, é que acabou por substituir Amílcar Cabral na liderança do PAICG?

Nada. Pelo menos nessa altura não sabíamos.

 

Ou seja, receberam a notícia da morte de Cabral, mas o resto foi uma escuridão.

Escuridão total. O Dr. Baltasar também não sabia, porque ele tinha a residência fixa e altamente vigiada na época. Dá-se o 25 de Abril de 1974 e nós pensamos: “bom, chegou a hora de falarmos abertamente”.

 

O seu pai era administrador de concelho em Cabo Verde. Ele trabalhava, por um lado para as autoridades coloniais, mas, por outro lado, protegia a juventude nacionalista, que é o que vocês eram. Mas eles incorriam em algum risco em ter essa atitude convosco. Como é que geriu pessoalmente esse conflito?

O meu pai tentava abafar, encobrir as coisas. A minha mãe, como era simpatizante do Partido Comunista Português, sentia-se quase que identificada com o processo

Mas eles não o apoiavam abertamente, nem estavam envolvidos. Simplesmente diziam que eram coisas de jovens, resultado de leituras, etc. Mas a prova de que o meu pai estava consciente do que se passava foi quando o António Pascoal atingiu a idade de fazer o serviço militar e não queria ir para a tropa Portuguesa. O meu pai passou-lhe um passaporte para ele se evadir, sabendo que ele ia ao estrangeiro para ficar.

 

Então podemos dizer que a generalidade dos cabo-verdianos estava alinhada com os valores do nacionalismo na época?

O cabo-verdiano teve sempre a consciência da sua identidade. Começava por dizer: primeiro somos Cabo-verdianos, depois é que somos portugueses. Havia esse orgulho em ser cabo-verdiano. Esse orgulho, na minha opinião, era mais acentuado antigamente do que agora. O cabo-verdiano actual não tem tanto orgulho em sê-lo.

Qual era a vossa apreciação da realidade social daquela altura? A juventude de São Vicente tinha consciência da situação social nas outras ilhas?

Nesse aspecto eu tinha uma posição privilegiada, porque conheci as outras ilhas de Cabo Verde. Quando cheguei a São Vicente de Portugal, vim a conhecer a realidade Mindelense, tal com tinha sido retratada na Hora di Bai. Acreditávamos todos que era necessário mudar; tínhamos essa consciência que era necessário, mas não sabíamos como. A nossa grande esperança era que aqueles que estavam lá fora, quando chegasse o dia, haviam de mudar algo. Daí que achássemos que era necessário manter a consciência do povo, que era necessário ele saber que era Cabo-verdiano. Portanto, foi um programa com uma estratégia bem definida. E é interessante saber que éramos tão jovens ao tê-lo feito.

 

25 de Abril de 1974. Como e quando é que receberam a notícia da queda do regime em Portugal? O que é que mudou em Cabo Verde?

Recebemos a notícia no mesmo dia. Ficamos todos quietinhos à espera do que havia de acontecer. Continuamos a nossa vida normalmente até o dia 26; no dia 27, salvo erro, fui ter com o Luís Fonseca e disse-lhe “estão a falar na rádio que há manifestações em Portugal e nós não fazemos nada?” Ao que ele respondeu “não; nós estamos a preparar as coisas, estamos à espera”. É que o Luís, nessa altura recebia ordens de Conacri, mas as ordens não chegavam, não havia contacto: não podiam vir por telefone, não podiam vir pelo telégrafo nem pela rádio porque a PIDE ainda interferia. Entretanto o Luís Fonseca decidiu, “vamos apoiar o Spínola”. “Spínola não”, disse, porque tínhamos a ideia que era ele – que na altura era ele o governador da Guiné Portuguesa – quem tinha mandado assassinar Amílcar Cabral. Mas o Luís lá convenceu-me. Era no período da manhã e fui ao Liceu Novo, hoje Ludgero Lima; comecei a abrir as salas de aula, dizendo delicadamente aos professores que queria dar uma palavrinha aos alunos. Consentiram e eu disse, “oh colegas, não há mais aulas, vamos todos manifestar no Comando Naval, na Avenida Marginal”…

 

E os professores, como reagiram à sua intervenção nas suas aulas?

Todos ficaram calados, sem dizer absolutamente nada. Eram cabo-verdianos e portanto não se opunham. Então, a primeira turma saiu, depois a outra e assim por diante até tirarmos todos os alunos do liceu. Encetamos então a caminhada para o comando naval e gritar “viva a liberdade, abaixo a ditadura, viva Spínola”, e não me lembro que mais. Saímos do Liceu, fomos à Escola Técnica onde fizemos a mesma coisa e fomos engrossando. Os alunos mais activistas tomavam a palavra e falavam aos colegas. Viemos pela Avenida Marginal, fomos ao Comando Naval, e quando passávamos pelo caís, vieram os estivadores e engrossaram a nossa fileira. É que os estivadores tinham sido mobilizados pelo Dul.

 

Com o PAIGC ou fora das estruturas do PAIGC?

Bom, não posso dizer, porque estamos a dois dias depois do 25 de Abril…

 

O PAIGC já estava a fazer declaradamente este tipo de mobilização ou ainda não?

Ainda não estava declaradamente. Eu movimentava a juventude, o Dul movimentava a zona dos estivadores;  o Djô de Papinha era a zona de Ribeira Bote. Foi depois do 1º de Maio que saímos ligados às estruturas do PAIGC, antes disso não. De 25 de Abril a 1 de Maio são 6 dias. Dois dias depois do 25 de Abril fizemos a primeira manifestação estudantil e no dia 1º de Maio mobiliza-se a população toda. A partir daí, quem está visivelmente no comando é o Luís Fonseca. À espera de uma ligação de Conacri que não vem. Mas, a partir da manifestação em frente ao Comando Naval, os estudantes e os estivadores passaram a ser os instigadores de toda a movimentação em São Vicente; são os Jovens estudantes que instigam os recrutas em Morro Branco a não jurarem a bandeira Portuguesa. Passado alguns meses após 25 de Abril, as ideias em prol da Independência ganharam a rua; começaram a surgir oradores espalhados pela cidade e arredores, sem nenhuma articulação com o núcleo do PAIGC. É aqui que se faz sentir a necessidade de uma organização forte. É quando o núcleo do PAIGC  de São Vicente faz sair da clandestinidade mais militantes, e estes passam a dar a cara.


Entrevistas com:

Don’t trust anyone over thirty

Adelina Dupret

Alfredo Machado

 

 

 

 

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Autoria:Rosário da Luz,28 abr 2014 0:00

Editado porRendy Santos  em  28 abr 2014 12:37

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